Colecionador de histórias

Todos os dias conversamos com algumas pessoas e ouvimos o que elas têm a dizer. Todos os dias, sem querer, ouvimos outras pessoas conversando. Todos os dias, escritores pelo mundo todo ouvem a mesma pergunta: “De onde você tira essas histórias todas?”.

Claro que sempre somos tentados a responder da mesma forma simples e nem tão verdadeira assim: “Eu inventei tudo isso, ué!”. Mas a verdade nua e crua é que colecionamos histórias. Histórias que nos são contadas e histórias que são contadas a outras pessoas e nós ouvimos por acaso. Histórias que lemos em livros e histórias que vemos em filmes e séries. Nada do que escrevemos é completamente original. Aquela história da radiologista principiante que foi tirar uma radiografia na UTI e não tinha ideia do que iria encontrar eu ouvi hoje cedo, no ônibus. Vou contar.

Ontem aconteceu algo que me deixou chocada. Eu estava de bobeira na sala de radiografia quando o telefone tocou. Era a enfermeira da UTI dizendo que precisava que alguém subisse lá para tirar uma radiografia de tórax. Eu fiquei meio apreensiva, mas falei que já estava indo. Peguei a placa e a câmera e subi.

Quando cheguei na UTI a enfermeira me mostrou de qual paciente eu deveria tirar a radiografia. O cara tinha sido baleado pelo menos umas 6 vezes! Um médico estava do lado do paciente e pedi para ele me ajudar a levantar o cara para colocar a placa embaixo dele para tirar a radiografia. Ele me ajudou, coloquei a placa, ajeitei tudo. Estava me preparando para irradiar, perguntei se alguém gostaria de sair da sala, por causa da radiação. Ninguém quis sair, então fui em frente. No exato instante em que apertei o botão para irradiar, o monitor cardíaco do paciente passou do bipe para um som constante.

Meu sangue gelou, não sabia o que fazer. O médico começou a gritar ordens para as enfermeiras e eu não conseguia me mexer. Ele me deu um empurrão de leve, eu peguei a câmera e me afastei. Ele começou a baixar a maca e a placa quase caiu no chão. Consegui tirar a placa debaixo do paciente e me afastei de novo. O médico subiu em cima do paciente e começou a massagem cardíaca.

Ele ficou em cima do paciente, trocou de lugar com a enfermeira quando não estava aguentando mais. A enfermeira ficou mais um pouco e também não aguentava mais. Eu não sabia o que fazer, estava paralisada no canto da parede apenas assistindo tudo aquilo. O médico voltou a fazer a massagem e nada daquele coração voltar a bater. Quando o médico se cansou de novo e foi trocar com a enfermeira o som do bipe voltou a encher a sala e todos respiraram aliviados.

Então, como se nada tivesse acontecido, o médico virou para mim e disse: “Vou querer uma AP e uma de costas, por favor”.

Escreva!

escreva

Quero muito escrever um livro. Então acho que vou escrevê-lo. Toda vez que penso em escrever eu acabo ficando com preguiça e acho melhor ler alguma coisa que me ajude a escrever. Doce ilusão, apenas começar a escrever ajuda a pessoa a escrever.

A leitura vai te ajudar com gramática, ortografia, estilo e até vai te dar algumas idéias, mas só ler não te faz um escritor. Vai ter que escrever muito até chegar lá. Escrever é a parte mais importante de ser um escritor.

Escreva todo dia, mesmo que fique uma merda. Escreva com lápis ou caneta. No computador ou máquina de escrever, essa última é ótima. A máquina de escrever vai te blindar de muitas distrações e vai te ajudar a concentrar no que está fazendo.

Na máquina de escrever não tem como você consertar o que digitou errado e vai ter que apertar uma tecla de cada vez. Vai ter que prestar muita atenção para sair algo decente. Mas a dica mais importante é não ler o que escreveu!

Eu sei que seu professor de redação disse que você deveria ler o que escreveu antes de qualquer coisa, mas quando se está tentando escrever algo criativo essa é a pior coisa que você pode fazer. Você vai se julgar e achar tudo uma bosta antes mesmo de terminar de escrever e vai acabar se frustrando e desistindo do que nem começou direito. Então escreva tudo, guarde por um tempo e depois leia tudo. Se você pensa que escrevi esse texto para você, leitor, se engana. Escrevi para mim mesmo.

Eu preciso escrever mais e me julgar menos. Relaxar e deixar a mente viajar e simplesmente escrever qualquer coisa que passar na cabeça e não erguer meus olhos para ler o que já foi escrito. Pelo menos não hoje, semana que vem eu leio e vejo o que está bom e o que está ruim. Acerto as pontas soltas e, eventualmente, o livro estará escrito!